Momento nostalgia

Na nota fiscal, a data de emissão é 13 de fevereiro de 2000, julgando que os correios entregam as mercadorias em três dias úteis em minha cidade após a remessa, foi numa quarta-feira, dia 16 daquele mês, que eu recebi a encomenda com o Conectiva 5 e tive meu primeiro contato com o mundo Linux.

Hoje baixou uma nostalgia tremenda por aqui. Procurando uns livros, acabei encontrando minha coleção pessoal de Linux. Parece estranho dizer assim, mas tenho as cinco caixas do Conectiva Linux, da versão 5 até a 9 e guardo-as com muito carinho. A versão 10 eu baixei, tenho apenas a imagem e posso dizer com muito orgulho que ajudei em seu desenvolvimento, reportando alguns bugs nas versões de teste. Essa última foi, pelo menos que eu me lembre, a versão onde os usuários colaboraram maciçamente no desenvolvimento e, por uma armadilha do destino, foi a última liberada pela saudosa Conectiva antes de ser comprada pela Mandrake.

As versões do Conectiva Linux, da 5.0 até a 9

Naquele ano (2000), num papo entre amigos, em frente a uma funerária, isso mesmo, uma funerária! Ouvi as primeiras menções sobre Linux. Jamais eu tinha visto falar sobre o sistema. Chegando em casa fiquei ansioso para o relógio marcar meia-noite, afinal, conexão discada era só depois da zero hora, senão a conta de telefone vinha salgada.

Quando conectei, minha primeira providência foi descobrir o que era o tal de Linux e como eu poderia ter contato com ele. Nessa época eu já tinha muita facilidade com computadores. Rodava o Win98 no meu Pentium MMX de 200Mhz, com 32 MB de RAM e  dois HD’s de 2G. Também dava meus primeiros passos no Corel 5. Nas horas de folga jogava Indycar Racing da Papyrus e digitava trabalhos escolares e de faculdade para os amigos. Lembro-me que naquela época as buscas eram feitas no Cadê que em terras brasileiras reinava absoluto, algumas outras eram feitas no Altavista. Google? Naquela época tava engatinhando ainda! Quando fui refinando minha pesquisa, encontrei alguns sites bem interessantes em português que tratavam com maturidade sobre Linux. Incluo nesse rol o Br-Linux, lembro-me que juntamente com o site Linuxall.org, que hoje nem existe mais, foram meu suporte por muito tempo, onde busquei muitas informações sobre como instalar e manipular o sistema, inciando assim minha jornada nesse maravilhoso universo.

Pesquisa daqui, pesquisa dali, achei o site da Conectiva. Li tudo que pude. Devorei todas as informações e fiquei eufórico ao ver as capturas de tela do sistema que eles disponibilizavam. Durante aquela semana eu procurei todo o tipo de informação sobre Linux. Muitas páginas eram em inglês. Existia uma boa quantidade de material, porém nada que se compare ao que encontramos atualmente. Tudo que eu lia ia para a impressora. No final montei um livro com o material impresso para servir de referência e suporte. Mesmo com todas as pesquisas e uma boa coleção de sites, ainda não estava seguro em comprar a caixa para testar.

Nessa época eu assinava o jornal Estado de Minas. Todas as quintas-feiras eles publicavam o caderno de informática. Sempre gostava de ler esse encarte. Foi através dele que tive o estímulo necessário para comprar de vez o Linux, e encarar de frente o pinguim. A matéria era bem esclarecedora e dava uma visão completa do SO. Um detalhe, eles foram categóricos em dizer que o sistema era imune a vírus. Acreditem, já se passaram 10 anos e seis meses e realmente nunca tive nenhum tipo de problema com pragas virtuais. Naquele mesmo dia pedi minha caixa do Conectiva 5. Foi minha primeira compra on-line!

Caixa do Conectiva Linux 5.0

Quando a encomenda chegou, a vontade era de instalar e começar a aprender sem perder nenhum minuto. Mas contive a ansiedade e tive a paciência de ler todos os manuais e me assegurar que não perderia meus preciosos dados. Nessa época eu não tinha o hábito de fazer becapes, mesmo porque tudo era em disquete. Meus 200 MB de besteiras digitais, incluindo-se aí artes gráficas, músicas e trabalhos digitados ficavam no segundo disco rígido. A ideia inicial era particioná-lo e garantir os 850 Mb para a instalação do sistema operacional. Ou seja, 1 giga para minhas quinquilharias digitais e 1 giga para o novo sistema operacional. A ideia era essa, mas na prática eu fiz bobagem. Não copiei nenhum dado pro primeiro disco e acabei apagando as informações com a instalação, sem mencionar que particionei e instalei errado. A fúria foi compensada pela alegria de após mais três tentativas e o acionamento do suporte, ver a tela de login subir e poder dar meus primeiros passos nesse mundo fantástico do Linux.

No início apanhei muito, não posso negar. Tive altos e baixos no meu aprendizado. Fiquei apaixonado com o KDE 1.1.2 e detestei o GNOME e o Windowmaker. O Star-office da Sun era a suíte de escritório que acompanhava o SO e abria uma segunda área de trabalho que deixava o sistema bastante lento. O kernel na época era o 2.2.13-10cl e não consegui fazer meu maldito winmodem conectar na internet para atualizar o sistema. No pacote vieram seis cds, sendo o 1 e 2 com os binários e documentação, o 3 e 4 os códigos fonte e o 5 e 6 com os aplicativos comerciais. Em resumo, apesar das dificuldades iniciais e de adaptação, fui aos poucos pegando gosto pelo sistema e não parei mais. Comprei no ano seguinte a versão 6, a primeira com apt-get para pacotes RPM, depois as versões 7, 8 e 9. Depois da versão 10 pulei de galho em galho tentando encontrar uma distribuição que me atendesse satisfatoriamente, mas isso é outra história. Hoje uso o Ubuntu e estou bastante contente com a evolução do Linux, mas uma coisa não posso negar, eram bons aqueles tempos, apesar de toda a dificuldade em deixar o sistema redondinho.

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  1. agosto 12, 2010 às 1:16 pm | #1

    Wendell, nostalgia? Eu sou do tempo do Basic e do Cobol, meu filho!

    Abs!

    • agosto 13, 2010 às 5:00 pm | #2

      Pensei o mesmo :-) E ainda tenho o Cobol aqui, o Basic e outras coisas estranhas. Linux, o primeiro, Slackware 3.3 num CD da WalnutCreek :)

      E a caixa do Conectiva 5 também está aqui guardanda. Bons tempos…

  2. agosto 13, 2010 às 11:41 am | #3

    “Pentium MMX de 200Mhz, com 32 MB de RAM” Eu tinha um desses! Aliás, um Pentium Pró! Por sinal, ainda tenho ele encostado num canto, esperando eu desenterrar algum projeto com linux para colocar ele na ativa novamente :o)

    Lúcio Jr., nostalgia é relativa… assim vc acaba de revelar a sua idade… só faltou falar de TK82 e TRS-80. Ou, se hj vc é iPhone-maníaco, do Aplle IIe :P

    • agosto 13, 2010 às 11:59 am | #4

      Eliazer, é uma bela máquina! Vendi ela para um professor anos atrás e para minha surpresa, outro dia, por acaso estive na casa dele e pude vê-la, rodando Win98 e funcionando relativamente bem.

  3. Stclara
    agosto 13, 2010 às 12:03 pm | #5

    Salve, amigo… Também tenho as caixinhas da conectiva ainda, se bem que minha primeira distro foi slackware… uma semana pra conseguir instalar e fazer funcionar no pentium mmx 200. Aí comecei a comprar as caixinhas da conectiva…. Não aguentei esperar pelo correio e fui retirar direto na sede em Curitiba. Também tenho as edições da revista do linux desde o nº1, faltam duas ou tres edições para a coleção completa. Ha, sim… ainda tenho um tk82 funcionando… heheheh…

  4. Luiz
    agosto 13, 2010 às 5:43 pm | #6

    Acho que em 98 ou 99 eu fui na Conectiva, que ficava na vila guaira em Curitiba e comprei no balcão a edição Marumbi ou Guarani. Tenho ainda o CD na caixa em casa.
    Instalei numa maquina montada com peças do paraguai, o processador era Cyrics (rodava com um pentium 75MHz), Monitor goldstar e um maldito winmodem que nunca consegui fazer funcionar.
    Faz tempo.

    Basic eu rodava num tk iie em casa em 86 com monitor ambar e drive de diskete 5 1/4.

    E antes disto rodava basic em um cp500 em um cursinho de informatica, copiando programas de revistas.

    Brinquei tambem de programação fortran preenchendo aqueles malditos cartoes IBM e usei o PDP11 com fitas perfuradas.

    Realmente nostalgia…

  5. Enrique
    agosto 13, 2010 às 8:36 pm | #7

    Realmente.. algo bom de dar uma lidinha.
    Mas, não lembro o ano corretamente, também dei minhas primeiras cabeças na versão Parolin… como sofria!! rs

  6. paulo
    agosto 13, 2010 às 9:58 pm | #8

    No natal de 99 eu pedi o CL 4.0. que emocionante :P esperei ve-lo aqui mas fica p outra ne? ;)

    • agosto 14, 2010 às 2:10 pm | #9

      Paulo, não tive a sorte de conhecer as primeiras versões do Conectiva Linux, porém já li alguns relatos sobre elas. Pena que não tive contato, senão estariam no post, sem sombra de dúvida.

  7. jose
    agosto 14, 2010 às 12:32 am | #10

    saudades é, conectar usando minicom, pppd -d -detach kkkkkkkkkk. bitchx, xfree86. modem usr robotics custando 350 reais.. pessoal ta envelhecendo. o do cobol ganhou heheh

    • agosto 14, 2010 às 2:12 pm | #11

      Pois é José, vivi essa experiência também, porém o meu mondem era da Trellis, comprado na LinuxMall! Paguei caro por ele, mas valeu a pena, esse sim era um modem. Tá guardado aqui e funciona perfeitamente.

  8. Fabiano
    agosto 14, 2010 às 12:58 pm | #12

    Eu comecei no Linux nestes meados com a versão 3.0 Guarani do conectiva, customizava meu desktop ao máximo para menos consumo de ram que era pouco na época e passei por varias distros uma que aprendi muito foi o Gentoo vc aprende linux de verdade, pois e nela que vc põe a mão na massa.
    Foi muito interessante sua materia me fez lembrar horas e horas que passava para aprender.

    • agosto 14, 2010 às 2:14 pm | #13

      Nada melhor que lembrar desses momentos onde realmente tínhamos que matutar para conseguir fazer a coisa funcionar. Como sempre digo, o Linux amadureceu muito e creio que já está pronto para o usuário final. Mas sinceramente, da saudade de por a mão na masse de vez em quando para fazer a coisa funfar de acordo. ;-)

  9. agosto 14, 2010 às 7:34 pm | #14

    Bons tempos. Talvez tenha sido um erro a fusão com a Mandriva. De referência na América Latina a Conectiva/Mandriva praticamente sumiu dos grandes negócios.

  10. agosto 24, 2010 às 6:45 pm | #15

    Cara, você é novo nisso! Eu, que não sou muito mais velho no pingüim, comecei a usar na época do kernel 2.0.36… Era um Red Hat que não funcionava se você atualizasse a libc, mesmo com todas as dependências solucionadas… Lembro do gerenciador de pacotes que abria novas janelas quando se adentrava uma categoria… Faz tempo isso!
    Nunca usei o Conectiva, muito menos a versão Parolin, mas essa era a época em que eu ia com certa freqüência numa grande loja de informática (daquelas que não existem mais) no Parolin só para olhar os produtos nas prateleiras…
    Criei meu primeiro e-mail (domínio linuxbr.com.br) para tentar conseguir umas dicas de como compilar o Enlightenment, que devia estar na versão 0.13! E você deve saber como demora para o Enlightenment mudar de versão… Se bem me lembro, era 1998.
    Depois disso, mudei para Debian, que atualizava direito a libc. Mais ou menos na virada do ano passado para este, cansado da força bruta no Debian testing, passei a usar o OpenSUSE, e estou gostando. Vida mansa para um usuário de desktop cansado de tanto mexer no SO!
    Posso dizer que conheci muita coisa da configuração do Linux no tempo em que isso era difícil. Hoje, desisti até de compilar o kernel!

    • agosto 24, 2010 às 11:01 pm | #16

      Leandro, na moral, era ou não era bom? É gratificante ler sobre as experiências das pessoas nesse universo maravilhoso. Realmente da pra separar bem o Linux daquela época para a nossa atualidade. Quem fez com a unha sabe bem o quanto era difícil mas ao mesmo tempo gratificante, só pra ver a coisa funcionar.

  11. Eduardo C. Melo
    agosto 24, 2010 às 11:13 pm | #17

    Wendell, parabéns pelo post e por trazer boas lembranças.

    Aproveitando, tenho os disquetes de instalação do Clipper 5.2e de 1995, se quiser emprestado para desenvolver sistemas com interfaces aprimoradas, estilo RIA… me avise!

  12. dezembro 4, 2011 às 5:46 pm | #18

    Fala serio cara, vc devia ter escrito um livro, meu primeiro contato com o linux acho que foi com o Openlinux (Tava no 1º grau, eu nem sabia o que era), mas comecei a aprender linux profissionalmente com o Conectiva 10. Acho que ñ vai nascer outro distribuição melhor do que essa.

  13. dezembro 5, 2011 às 11:50 pm | #19

    Realmente o Conectiva Linux deixou uma saudade enorme e muitos órfãos. Até hoje me pergunto por que não tentaram manter a distro que mudou a visão do Linux no Brasil. Muitos a criticaram, mas sinceramente, jamais houve uma substituta que atendesse o público brasileiro. Quanto ao livro, acho melhor brincar aqui no blog mesmo. Abs e obrigado pela visita ;-)

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